A mídia desempenha um papel crucial na disseminação de informações, com o poder de influenciar opiniões, moldar comportamentos e, em alguns casos, interferir diretamente no desenrolar de eventos. Contudo, essa responsabilidade deve ser exercida com cautela e ética, especialmente em situações delicadas que envolvem vidas humanas. Exemplos marcantes, como os casos de Eloá Pimentel e Vitória Regina, ilustram os desafios éticos enfrentados pela mídia e evidenciam as consequências da exploração midiática desmedida. Esses episódios nos convidam a refletir sobre os limites entre o dever de informar e a proteção da dignidade das vítimas, levantando debates urgentes sobre o papel social do jornalismo e do marketing.
Relembre os casos
O caso de Eloá Pimentel, em outubro de 2008, tornou-se um marco na história do jornalismo brasileiro. Eloá, de apenas 15 anos, foi mantida em cárcere privado por cerca de 100 horas pelo ex-namorado Lindemberg Alves, que não aceitava o término do relacionamento. O sequestro foi amplamente transmitido pela mídia, com um programa de televisão detalhando os acontecimentos ao vivo, diretamente do local. Em um momento polêmico, a apresentadora tentou negociar a soltura das reféns por telefone, ao vivo, um ato amplamente criticado por comprometer as negociações policiais. O desfecho trágico resultou na morte de Eloá, causando comoção nacional e levantando questões sobre os limites éticos do jornalismo.

De forma semelhante, o caso de Vitória Regina, de 17 anos, ocorrido em 2025, revelou os mesmos dilemas éticos. Após desaparecer em 26 de fevereiro, seu corpo foi encontrado dias depois, com sinais de violência extrema. Durante uma entrevista ao vivo com o pai da vítima, uma apresentadora revelou informações sensíveis sobre o suposto autor do crime, que o pai desconhecia até aquele momento. A abordagem foi considerada insensível e inadequada, gerando críticas intensas e reacendendo debates sobre o papel da mídia em situações de tragédia.

Esses exemplos expõem a necessidade de sensibilidade e ética em veículos de comunicação, especialmente ao lidar com famílias em luto. A transformação de tragédias em espetáculos midiáticos gera sofrimento adicional às vítimas e levanta a pergunta: até que ponto o dever de informar justifica a busca por audiência?
Sensacionalismo em alta: o impacto do exagero na busca por cliques
Em busca de audiência e novos clientes, muitas marcas acabam deixando de lado princípios éticos, ultrapassando limites ao recorrer a fofocas ou ao sensacionalismo de temas extremamente violentos.
Tanto no marketing quanto na mídia, o apelo às emoções é uma ferramenta poderosa. Assim como no jornalismo, o marketing também pode usar táticas sensacionalistas para promover produtos, criando histórias para se conectar com os consumidores. O verdadeiro problema reside no uso desse poder de sedução para construir narrativas que prejudicam os outros, resultando em consequências negativas tanto para a marca quanto para os consumidores.
Recentemente, uma marca de roupas cristã lançou camisetas estampadas com duas mãos – uma de pele escura e outra clara – em contato, com a segunda apresentando marcas da primeira, acompanhadas da frase ‘não se contamine’. O design foi amplamente criticado por sua conotação racista, resultando na remoção do produto das prateleiras. Entretanto, antes disso, a marca enfrentou uma enxurrada de críticas nas redes sociais, o que culminou em uma crise para sua reputação.
Outro exemplo clássico de como uma simples ação pode impactar nos resultados da sua empresa é o comercial de uma marca de cosméticos que trazia uma mulher negra “se transformando” em branca após usar o produto. Naturalmente, a campanha foi acusada de racismo e retirada do ar.
Esses casos demonstram como ações mal planejadas podem ter consequências severas, destacando a importância de considerar o contexto social, cultural e histórico ao criar campanhas, além de antecipar possíveis interpretações negativas. A revisão cuidadosa, com um olhar crítico e holístico, é essencial para evitar mal-entendidos e mensagens ofensivas. Quando falhas desse tipo ocorrem, os danos à reputação de uma marca podem ser profundos e duradouros, exigindo um esforço significativo para reconquistar a confiança do público. Em algumas ocasiões, essas tentativas falham, resultando na perda de relevância da marca no mercado ou, em casos mais graves, no encerramento de suas atividades.
Planejar com sensibilidade e ética não é apenas uma estratégia; é um compromisso que deve estar no centro das decisões de marcas e veículos de comunicação. No marketing e no jornalismo, o impacto positivo é alcançado quando mensagens e ações respeitam a dignidade humana, fortalecendo conexões autênticas com o público.
É essencial que a comunicação entre marcas, consumidores e veículos de notícia seja pautada pela verdade, combatendo a disseminação de fake news e propaganda enganosa. No Brasil, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) determina a proibição de qualquer publicidade considerada enganosa ou abusiva. Já a disseminação de notícias falsas é tema do Projeto de Lei 2630/2020, atualmente em tramitação, que busca regulamentar a divulgação de informações inverídicas em redes sociais e serviços de mensagens instantâneas, embora sua proposta gere debates. Vale destacar que há uma diferença crucial entre liberdade de expressão e a propagação de mentiras.
No fim das contas, o marketing ético vai além de estratégias pontuais: é uma filosofia que permeia todas as decisões da marca. Quando as empresas colocam a ética no centro de suas ações, criam conexões mais profundas e duradouras com seus consumidores, gerando impacto positivo na sociedade como um todo. Afinal, a credibilidade e a confiança do público são conquistadas pela integridade, e não pelo sensacionalismo.